sábado, 3 de maio de 2014

A M G e D M G


ANTES DE MARIA GILKA E DEPOIS DE MARIA GILKA 




Ah, a vontade de pintar! Foi por algo assim que fui envolvida numa das vezes em que assisti, no vídeo, Maria Gilka pintando o autorretrato, sem desenho prévio.
Célere e competente, aquele pincel parece ter vida própria: aparece do nada uma forma ovalada e plana em vermelho inglês diluído, aquarelado. E logo, uma órbita única, vazia e inquietante. Veloz, um traço vertical marca o nariz, seguido de um pequeno toque que sugere a boca. E então, a outra órbita compõe as sombras. Finalmente, uma íris escura começa a prenunciar a expressão do rosto.
Antes que se perceba, já estamos em plena viagem. A postura corporal muda, flagramo-nos na ponta da cadeira, coluna para frente, olhos literalmente colados na imagem de nascimento que se desenrola à nossa frente.
Mão e pincel são um só, levando-nos pela face recriada de Maria Gilka, do escuro para o claro, das sombras para a luz, ressaltando os volumes e fazendo surgir uma interpretação muito interessante de si mesma. A modelagem do nariz é deliciosa. Com poucas pinceladas ele vai se tridimensionando, quase saindo para fora da tela.
Não pude deixar de pensar na beleza que é poder ver um artista criando. Não há hesitação, Maria Gilka sabe exatamente quais as cores que precisa para dar o efeito final, tanto de um retrato impressionista, como de um fotográfico.
Aprendi muito com ela e continuo absorvendo o que posso, nos dois vídeos que conheço.
É por isso que digo sempre que minha pintura é AMG e DMG.


São Paulo, 1999.

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