ANTES
DE MARIA GILKA E DEPOIS DE MARIA GILKA
Ah, a vontade de pintar! Foi por algo
assim que fui envolvida numa das vezes em que assisti, no vídeo, Maria Gilka
pintando o autorretrato, sem desenho prévio.
Célere e competente, aquele pincel
parece ter vida própria: aparece do nada uma forma ovalada e plana em vermelho
inglês diluído, aquarelado. E logo, uma órbita única, vazia e inquietante.
Veloz, um traço vertical marca o nariz, seguido de um pequeno toque que sugere
a boca. E então, a outra órbita compõe as sombras. Finalmente, uma íris escura
começa a prenunciar a expressão do rosto.
Antes que se perceba, já estamos em
plena viagem. A postura corporal muda, flagramo-nos na ponta da cadeira, coluna
para frente, olhos literalmente colados na imagem de nascimento que se
desenrola à nossa frente.
Mão e pincel são um só, levando-nos
pela face recriada de Maria Gilka, do escuro para o claro, das sombras para a
luz, ressaltando os volumes e fazendo surgir uma interpretação muito
interessante de si mesma. A modelagem do nariz é deliciosa. Com poucas
pinceladas ele vai se tridimensionando, quase saindo para fora da tela.
Não pude deixar de pensar na beleza que
é poder ver um artista criando. Não há hesitação, Maria Gilka sabe exatamente
quais as cores que precisa para dar o efeito final, tanto de um retrato
impressionista, como de um fotográfico.
Aprendi muito com ela e continuo
absorvendo o que posso, nos dois vídeos que conheço.
É por isso que digo sempre que minha
pintura é AMG e DMG.
São Paulo, 1999.


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