sábado, 3 de maio de 2014

A MULHER DE VERMELHO





1930. Um quarto num sótão, com uma água-furtada. Paredes forradas de madeira clara. Em frente à janela, uma prateleira com pequenos vasos e frascos com flores.

Lá fora já é dia e uma neblina rala umedece o ar. Do ponto onde estamos, não podemos ver o que quer que seja da paisagem.

Mas o mesmo não acontece com a jovem mulher num vestido de algodão vermelho, decote redondo e mangas compridas. Seu corpo está em três-quartos, mas apresenta-nos o rosto em total perfil.

Em pé, ela olha através dos vidros fechados da janela. Estática, dá a impressão de ter passado toda a noite ali. Os cabelos fulvos, fartos e macios, penteados devagar e longamente, agora estão presos num coque frouxo.

A luz fraca da manhã que entra pela janela ilumina seu rosto e colo. Apoia o braço direito na prateleira em frente à janela, deixando pender a mão de dedos compridos e afilados. Sua face tão bonita está carregada de tristeza. Nos olhos de um azul intenso, uma lágrima antiga começa a brotar. O nariz avermelhado e os cantos da boca, quase imperceptívelmente puxados para baixo, transmitem um mudo desespêro e uma enorme resignação.

Em que pensa a mulher de vermelho? Porque chora? E o que vê lá fora, ou o que não vê? 

Para mim, A Mulher de Vermelho olha para fora da janela de seu quarto e vê o mar, um oceano de dor, imenso e indiferente . Está envolta numa aura de solidão e mergulhada em uma tristeza tão grande quanto o mar que contempla.

Sinto que ela perdeu alguém, muito amado e muito precioso. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário