sábado, 3 de maio de 2014

Quatro Artistas



Em resposta ao comentário do Polemikos (Turini) no Retrato da “Chris Olhando o Melão”:
Meus filhos desenharam desde muito novinhos. 

Flávio Rubens, desde pequeno desenhava máquinas, carros, aviões, foguetes e balões, além de outras figuras variadas. Adorava Fórmula I e desenhava corridas inteiras. Também colocava figuras humanas junto às máquinas, cujo traço era bem forte. Essas figuras eram os homens que trocavam os pneus, ou aquele que levanta a bandeira de Chegada. Flávio tem três filhas, Samara, Gabriela e Jéssica. É  jornalista e ainda desenha e pinta carros de Fórmula I em computação gráfica, trabalha bem com Corel Draw, Adobe Photoshop e outros programas que nem conheço. 
 Alessandra, aos 2 anos, encontrou entre meus guardados alguns riscos de bordado e elegeu um com motivo de margaridas como seu predileto. Logo começou a fazer círculos com pétalas em volta, um pouco mais tarde colocava olhinhos e sorrisos dentro, traçava as hastes e colocava as folhas. Talvez por inspiração da Alice no País das Maravilhas, as Margaridas eram quase humanas. Aos 4 anos já fazia figuras humanas com corpo e membros, cabelos, olhos, nariz e orelhas. Em seguida vieram as princesas de longos vestidos e longos cabelos, os cavalos, os príncipes armados de espadas e vestidos à moda medieval ou mais modernos um pouco, inspirados pela Princesa Safiri. Cresceu, formou-se em Artes Plásticas na FAAP e fez o Curso do Dalton de Luca (Desenho e criatividade do Lado Direito do Cérebro). Foi quando começou a desenhar retratos, com uma perfeição que eu nunca consegui! Depois trabalhou com Ubirajara Ribeiro em Aquarela, montou seu próprio Atelier com uma sócia japonesa cujo nome esqueci (horrível falha de memória! Alê, ajude-me a lembrar!), também excelente aquarelista e as duas ministravam cursos. Hoje Alessandra trabalha num Estúdio Fotográfico em Sydney, onde vive com seu marido Jimmy e sua filha Rebecca, de 6 anos.
Rodrigo, 4 anos mais novo que Alessandra, olhava os irmãos com seus lápis de cor debruçados sobre folhas de papel cheios de figuras que achava lindas. Pegava um giz de cera vermelho (que se tornou sua marca registrada) e desenhava do seu jeito muito especial, em traço único, firme e forte, sem hesitação. Gostava de desenhar o que via na TV, Vila Sésamo, Muppets e outros desenhos. Traçava com segurança os ônibus cheios de crianças, com cano de escapamento comprido e vertical, subindo por trás e soltando nuvens de fumaça.
Sua imaginação era instantânea e incrível (rsrs) ... Uma vez, no Jardim da Infância, a professora solicitou à classe criar uma história num desenho rápido e pessoal; enquanto os outros começavam a pensar no que fazer, Rodrigo, embora já conseguindo figuras bem complexas, traçou apenas 3 linhas retas e verticais, de espessuras diferentes. A professora ficou curiosa: Já, Rodrigo? Mas qual é a “história”, o que significam esses traços? E ele: Era uma vez três Fantasmas: o “Fino”, o “Grosso” e o outro “Mais Grosso” Não me lembro muito bem do resto, mas era algo assim como “o Grosso e o Mais Grosso brigavam com o Fino, coitado”... Essa história, não sei por quê, me faz lembrar o Miró, o Kandinsky ... (Você deve estar pensando: Só a mãe mesmo para “elucubrar total” assim...). Rodrigo apaixonou-se por computadores e pretendia cursar Informática para criar games. Mas a prima Lu, que entrou primeiro nessa área, avisou-o que era muito diferente do que ele pensava. Então optou pelo Direito, pois já trabalhava no escritório do pai desde os 15 anos. Hoje é um advogado que tem uma Subway...
Christina, 1 ano e 3 meses mais nova que o Rodrigo, inicialmente inspirava-se nos outros quatro e por isso desenvolveu um talento mais abrangente. A danadinha era capaz de desenhar e criar QUALQUER COISA... Cresceu, cursou Moda na FASM. Hoje vive e trabalha em New York e Los Angeles em Produção de Cinema e Televisão, com seu marido e filho André, de 3 anos.

Êta mãe feliz que sempre fui! Tenho o maior orgulho dos quatro filhos artistas!

A M G e D M G


ANTES DE MARIA GILKA E DEPOIS DE MARIA GILKA 




Ah, a vontade de pintar! Foi por algo assim que fui envolvida numa das vezes em que assisti, no vídeo, Maria Gilka pintando o autorretrato, sem desenho prévio.
Célere e competente, aquele pincel parece ter vida própria: aparece do nada uma forma ovalada e plana em vermelho inglês diluído, aquarelado. E logo, uma órbita única, vazia e inquietante. Veloz, um traço vertical marca o nariz, seguido de um pequeno toque que sugere a boca. E então, a outra órbita compõe as sombras. Finalmente, uma íris escura começa a prenunciar a expressão do rosto.
Antes que se perceba, já estamos em plena viagem. A postura corporal muda, flagramo-nos na ponta da cadeira, coluna para frente, olhos literalmente colados na imagem de nascimento que se desenrola à nossa frente.
Mão e pincel são um só, levando-nos pela face recriada de Maria Gilka, do escuro para o claro, das sombras para a luz, ressaltando os volumes e fazendo surgir uma interpretação muito interessante de si mesma. A modelagem do nariz é deliciosa. Com poucas pinceladas ele vai se tridimensionando, quase saindo para fora da tela.
Não pude deixar de pensar na beleza que é poder ver um artista criando. Não há hesitação, Maria Gilka sabe exatamente quais as cores que precisa para dar o efeito final, tanto de um retrato impressionista, como de um fotográfico.
Aprendi muito com ela e continuo absorvendo o que posso, nos dois vídeos que conheço.
É por isso que digo sempre que minha pintura é AMG e DMG.


São Paulo, 1999.

A MULHER DE VERMELHO





1930. Um quarto num sótão, com uma água-furtada. Paredes forradas de madeira clara. Em frente à janela, uma prateleira com pequenos vasos e frascos com flores.

Lá fora já é dia e uma neblina rala umedece o ar. Do ponto onde estamos, não podemos ver o que quer que seja da paisagem.

Mas o mesmo não acontece com a jovem mulher num vestido de algodão vermelho, decote redondo e mangas compridas. Seu corpo está em três-quartos, mas apresenta-nos o rosto em total perfil.

Em pé, ela olha através dos vidros fechados da janela. Estática, dá a impressão de ter passado toda a noite ali. Os cabelos fulvos, fartos e macios, penteados devagar e longamente, agora estão presos num coque frouxo.

A luz fraca da manhã que entra pela janela ilumina seu rosto e colo. Apoia o braço direito na prateleira em frente à janela, deixando pender a mão de dedos compridos e afilados. Sua face tão bonita está carregada de tristeza. Nos olhos de um azul intenso, uma lágrima antiga começa a brotar. O nariz avermelhado e os cantos da boca, quase imperceptívelmente puxados para baixo, transmitem um mudo desespêro e uma enorme resignação.

Em que pensa a mulher de vermelho? Porque chora? E o que vê lá fora, ou o que não vê? 

Para mim, A Mulher de Vermelho olha para fora da janela de seu quarto e vê o mar, um oceano de dor, imenso e indiferente . Está envolta numa aura de solidão e mergulhada em uma tristeza tão grande quanto o mar que contempla.

Sinto que ela perdeu alguém, muito amado e muito precioso. 


NO FIO DA NAVALHA


Quem é que está andando no fio da navalha?
(Coro) É a nação, é a nação, é a nação...

Quem é que está votando nessa gente tão canalha?
(Coro) É o cidadão, é o cidadão, é o cidadão...

Quem é que pede pão e lhe atiram só migalha?
(Coro) É meu irmão, é meu irmão, é meu irmão...

Quem é que pede vida e recebe só mortalha?
(Coro) É o peão, é o peão, é o peão...

Quem é que por semana compra um quilo de feijão?
(Coro) É o povão, é o povão, é o povão...

Quem é que enche a barriga de ovas de esturjão?
(Coro) É o figurão, é o figurão, é o figurão...

Quem é que anda solto, livre e fora da prisão?
(Coro) É o ladrão, é o ladrão, é o ladrão...

Quem é que ainda crê num Palácio da Alvorada?
(Coro) É o bobão, é o bobão, é o bobão...

Quem é que ainda sobe aquela rampa da esplanada?
(Coro) É o canastrão, é o canastrão, é o canastrão...

Quem é que pensa ainda que a Justiça é sagrada?
(Coro) É o cabeção, é o cabeção, é o cabeção...

Quem é que está dançando tão igual a um joão-bobo?
(Coro) É o cidadão, é o cidadão, é o cidadão...


Quem é que está beijando aquela boca que é de lobo?
(Coro) É o pifão, é o pifão, é o pifão...


Quem é que está esperando aquele bico lá na Globo?
(Coro) É o garanhão, é o garanhão, é o garanhão...


Quem é que anda mostrando impropriamente seu traseiro?
(Coro) É o bufão, é o bufão, é o bufão...

Quem é que está fazendo aquilo tudo por dinheiro? 
(Coro) Politicão, politicão, politicão...

Quem é que está votando de novo no torneiro?
(Coro) Aberração, aberração, aberração...



Viaduto Aricanduva




Engolindo última uva
No Viaduto Aricanduva...
Poças de água da chuva
Encharcam os meus sapatos
Furados, comidos de ratos...

Sinto o solo trepidando,
A chuva vai acabando,
Deixando um frio paulista.
Olho pra baixo na pista...
Sinto turvar minha vista,
Carros passando, passando...
Tamanha velocidade
Desafia a sanidade,
Causa dor em minha alma.
Digo pra mim: tenha calma...
Tenha calma, tenha calma...

Venta muito, sinto frio,
Sinto um enorme vazio,
Sinto medo, sinto fome,
Não vejo mulher, nem homem...
Madrugada, estou sozinho,
Molhado até o colarinho
Da camisa muito usada,
Encontrada na calçada,
Dentro de um saco de lixo,
Cheirando igual a um bicho
Sarnento, abandonado,
Como eu, pobre coitado
Sem morada e sem destino...

Assustadora cidade,
Equívoca realidade
É São Paulo... um desatino...
Razão demais tem Caetano
Quando viu o lado insano
E definiu como avesso
Do final para o começo,
Este solo paulistano.
O avesso do avesso ...
Do avesso do avesso...



posted by marianicebarth @ 00:10  3 comments links to this pos

Musa Intermitente


Esta poesia foi criada ao mesmo tempo em que estava sendo escrita. E de uma vez só. Parecia uma avalanche, uma enxurrada que não queria parar. Foi muito estranho e muito gratificante. As rimas prontas, não precisaram de retoque de espécie alguma. Não entendi o fenômeno, nem me importa, porque a amei todinha do jeito que saiu. Mas ainda tive de tirar várias estrofes, senão iria ficar ainda mais quilométrica...

Qual é a mancha
Que me desonra?
Que avalanche
Me angustia?
Que abulia
Mexe comigo?
Que alforria
Não conquistada
Me submete
Nesta Cruzada?
Quem é a Força
Que me combate?
Que disparate
Me deixa louca?
De quem os moucos
Ouvidos fúteis?
De quem, inúteis
Conversas rasas?
De quem o pranto
Que me transforma?
De quem a forma
Que me encanta?
De que garganta
Esta cantata,
Que me arrebata
E me fascina?
De quem a mina
De ouro e prata
Que me relata
O velho índio?
Que merovíngio
É descendente
Da antiga raça
Desse Graal?
Porque o medo
Desse segredo
Tão bem guardado
Pela Vestal?
Quem é a onda
Que me transporta?
De quem é o ombro
Que me suporta?
Quem é a rocha
Que não se move?
De quem a asa
Num voo cego?
De quem o Ego
Que me ignora?
Quem é que ora
Com tanta fé?
De quem é o pé
Que acaricia?
Quem é a água
Que se derrama?
Qual é a cama
Que me repousa?
Quem é que ousa
Ser meu mandante?
Quem é o amante
Que me recusa?
De quem a boca
Que me enlanguesce?
De quem os braços
Que me aquecem?
Quem é o césio
Que me dissolve?
Quem me devolve
A confiança?
Quem é que usa
O meu berrante?
Quem é a Musa
Intermitente
Que, inconseqüente,
Me faz feliz?
De quem os dentes
Na boca muda?
De quem o véu
Nos olhos cegos?
De quem os pregos
Nos meus sapatos?
Que peculato
Me Causa horror!
De onde a dor
Que me perfura?
De quem as garras
Que me seguram?
De quem a louca
Risada impura?
De quem a pura
Risada louca?
De quem a teia
Que me aprisiona?
Quem é a aranha
Que vive nela?
De quem o negro
Velho casaco?
De quem o taco
De beisebol?
De quem o brilho
Azul da lua?
Quem é que atua
Naquele palco?
Porque o álcool
Nessa garrafa?
Porque se estafa
Pai de família?
E da vasilha
Não vejo o fundo?
Porque o mundo
Está tão mudado
Que desse mundo
Não faço parte?
Eu quero em Marte
Plutão, Saturno
Ouvir noturnos
Da velha arte...
Quem é o barco
Que me naufraga?
Qual é o marco
Que me assinala?
De quem o sopro
Que me estimula?
De quem a chula
Conversa oca?
De quem as penas
Das asas sujas
Do negro óleo,
Como gangrenas?
Qual é a prata
De compra e venda?
De quem a moeda,
De cunho estranho,
Que foi meu ganho
Em outra vida,
Quando bandida,
Morri matada?!
De quem a morte
Que me aguarda,
Dentro da farda
E do passaporte?
De quanto sangue
Precisa a veia?
De quantos fios
Se faz a teia?
De quantos rios
Precisa o homem,
Louco de fome,
Pra poluir?
Quem abandona
Velhos na rua?
Quem é a nua
Mulher que dança?
Dessa criança,
Quem é o pai?
Quem é que alcança
Um sonho louco?
Quem ama pouco
Não ama nada!
Em quantas fadas
Eu acredito?
De quem o grito
De orgasmo quente
Que, de repente,
Emudeceu?
Qual é a nota
Dessa sonata?
Qual o compasso
Da melodia?
Qual é a rima
Dessa poesia?
Qual é o aço
Desse punhal?
De onde a bala
Que me atinge?
Quem é a falange
Que me destrói?
Se mais não posso
Falar, engulo,
Tornando nulo
O que me dói...



postado por marianicebarth às 18:10 em 06/10/2006 

Mulher


É amena, é bravia,
É a noite, é o dia,
É inteira, é fatia,
É Raquel e é a Lia...

É serena, é ansiosa,
É ferina, é amorosa,
É valente, é medrosa,
É gentil, é perigosa...

É violino, é orquestra,
É cidade, é floresta,
É sinistra, é a destra,
É discípula e a mestra...

É feliz e é felina,
É antiga, é menina,
É a lua, é neblina,
É real, é esterlina...

É fugaz, é permanente,
É a Eva, é a Serpente,
É furiosa, é carente,
É nascida e é matriz...

É certinha, é descuidada,
É o filé, é a salada,
É a sombra na calçada,

É o réu, é o juiz...

É Cassandra, é Medeia,
É malandra, é ateia,
É o Nada, é a ideia, 

É gerânio, é flor-de-lis...

É a bruxa, é a fada,
É canção, é trovoada, 

É inimiga, é camarada, 
É o ombro, é a risada...

É a massa, é a caça,
É a pedra, é a fumaça,
É a boca, é a mordaça,
É o vinho, é a taça...

É a graça, é a raça,
É o limão, é a cachaça,
É o banco, é a praça,
É o ódio, é amor...

É a dor, é indiferença,
É a fé, é a descrença,
É a vida, é a morte,
É tão frágil, é tão forte...

É espírito, é matéria,
É terrena, é etérea,
É riqueza, é miséria, 

É esboço, arte final...

É volúvel, é constante,

É tangente, é secante,
Diapasão altissonante,
Fusa tridimensional...